Alimentar uma Olimpíada

Este ano, manter todos alimentados nos jogos do Rio será um desafio culinário de proporções gigantescas. Vamos dar uma olhada no que os atletas vão comer?
 

Napoleão disse que os exércitos marcham com o estômago – e isso também se aplica aos atletas. Para incontáveis milhões, os Jogos Olímpicos deste ano no Rio de Janeiro, de 5 a 21 de agosto, serão a maior festa do esporte no planeta. Mas, como explica o professor David Russell, cuja empresa foi contratada para supervisionar a criação e a distribuição de comida em Londres em 2012, a Olimpíada também é “o maior evento alimentar do mundo”.

No Rio, haverá 10.500 atletas de mais de 200 países, cerca de 7 mil integrantes de equipes técnicas e 8 milhões de espectadores. O restaurante da Vila Olímpica planeja servir cerca de 60 mil refeições por dia, num total diário de 250 toneladas de comida.

Os oito princípios básicos que norteiam a operação de comida e bebida no Rio começam com o compromisso com a segurança. A equipe de 2.500 funcionários do serviço de alimentação trabalhará o dia inteiro para assegurar que tudo o que for consumido seja saudável, seguro e não contaminado por toxinas alimentares naturais nem substâncias químicas ilícitas. “A pureza da comida é a prioridade número um”, diz o professor Russell. “Cuidar do bem-estar dos atletas consome horas e horas de nosso tempo.”

O desafio seguinte é a questão complexa de atender às necessidades nutricionais dos mais diversos tipos de competidores. “Todos treinam o corpo para obter o máximo de desempenho. Todos têm necessidades nutricionais próprias, e a dieta de cada indivíduo é diferente antes, durante e depois do evento”, explica Russell.

Com uma área de 24.700 metros quadrados, o restaurante dos atletas no Rio será grandioso, com dez ilhas de serviço separadas por temas. Como na Olimpíada anterior, haverá nutricionistas disponíveis para orientações.

“Muitos atletas sabem exatamente de que alimento precisam”, diz Russell. “Mas outros, aqueles que participam da sua primeira Olimpíada, passam horas conversando com esses nutricionistas.”

 

A diferença entre os hábitos alimentares dos competidores foi ilustrada com perfeição na Olimpíada de Pequim, em 2008, na qual Michael Phelps, superastro americano da natação cujo corpo não parecia ter um único grama de peso em excesso, disse consumir de 8 mil a 10 mil calorias por dia.

Ele descreveu seu café da manhã típico: três sanduíches de ovo frito, queijo, cebola frita, tomate e alface; um prato de mingau de milho; três fatias de torrada polvilhadas com açúcar e três panquecas com pedacinhos de chocolate.

Por outro lado, a ginasta russo-americana Nastia Liukin, que ganhou a medalha de ouro feminina geral em Pequim, tinha uma ingestão diária de apenas 1.200 calorias. Aos 18 anos, ela revelou que seu café da manhã podia ter ovo, iogurte ou aveia, mas nunca os três juntos. “Depois, no almoço, eu como uma salada com frango, peixe ou algum tipo de proteína, e meu jantar é bem leve, provavelmente apenas um pedaço de peixe com legumes.”

Portanto, você tem um medalhista de ouro comendo no café da manhã muito mais do que outro come no dia inteiro. Do mesmo modo, um maratonista que quer combinar resistência máxima com peso mínimo pode comer de 3 mil a 3.500 calorias por dia, enquanto um triatleta, que precisa de força na parte superior do corpo além de resistência, ingere 6 mil calorias (as atletas consomem mais ou menos 75% a 80% da ingestão dos atletas do sexo masculino).

Agora ponha na equação os alimentos extremamente diferentes que competidores, digamos, da Bélgica e do Brasil ou da Jamaica e do Japão costumam comer. Somem-se a isso os princípios pessoais, problemas de saúde ou regras religiosas que afetam a alimentação a que se permitem.

 

Flávia Albuquerque é a coordenadora de qualidade e segurança dos alimentos da Rio 2016. Ela tem plena consciência do desafio de atender às diversas necessidades nutricionais dos atletas. “Os pratos terão informações sobre quantas calorias, quantas proteínas, carboidratos, gordura e sal contêm”, diz ela.

A presença de glúten e lactose também será indicada, com opções sem essas substâncias para quem sofre de intolerância. Embora Flávia indique que “não poremos pimenta na comida, ofereceremos a pimenta separadamente”, um evento dessa natureza é uma oportunidade para a nação anfitriã exibir sua culinária exuberante. “Vamos apresentar uma boa variedade dos melhores sabores do Brasil. Esperamos que os atletas estrangeiros os experimentem e gostem”, diz Flávia.

Ao lado de opções como culinária italiana, asiática, “sabores do mundo”, halal e kosher, haverá um churrasco tradicional brasileiro. Os atletas também terão oportunidade de provar pão de queijo, brigadeiro e o saudável açaí, fruta amazônica popular entre atletas pelo alto valor energético.

Sejam quais forem os pratos específicos oferecidos no Rio, nada será por acaso. Os organizadores de qualquer Olimpíada conversam com as federações que organizam os vários esportes para discutir suas necessidades específicas. Os competidores poderão vir aos Jogos sabendo que, se forem realmente importantes para eles, quinoa e queijo feta serão oferecidos.

É isso que Mike Naylor, nutricionista especializado que assessora a equipe olímpica britânica, descreve como “alimentação focada no desempenho”. Ele explica: “Cada refeição, cada alimento tem um propósito, seja apressar a recuperação, seja preparar o atleta para a próxima sessão, seja apenas manter o bem-estar geral e reduzir o número de faltas ao treinamento.”

A maioria dos competidores come mais quando treina do que quando compete. “O atleta obtém o combustível principal dias antes do evento, aumentando o estoque muscular de glicogênio [forma de glicose que atua como reserva de energia do organismo]”, diz Naylor. “Então, no dia da competição, ele come para não se sentir faminto nem empanzinado.” E acrescenta: “A comida pode ter efeito competitivo direto no dia do evento. Os maratonistas, por exemplo, têm uma capacidade limitada de armazenar carboidrato nos músculos e precisam refazer o estoque durante a corrida.”

 

Para os atletas no Rio, será nos refeitórios da Vila Olímpica e de outros locais de jogos que eles vão se misturar com outras pessoas do mundo inteiro.

Quaisquer que sejam as diferenças em desempenho e habilidade, esse espaço comunitário de alimentação é um grande nivelador, com medalhistas e participantes menos dotados lado a lado na fila ou dividindo a mesma mesa.

“É um ambiente incrível”, diz Anne Panter, jogadora britânica de hóquei. “Não importa se a pessoa é um superastro; ali ela é igualzinha a todos os outros atletas que se preparam para um evento.”

 

O que o professor David Russell recorda com mais clareza da última Olimpíada é como o clima do refeitório mudava durante o dia.

“É possível sentir o nível de tensão antes de eventos realmente importantes”, diz ele. “Quando se entra no refeitório para o café da manhã, o salão está em silêncio, contido. Todos comem como indivíduos, isolados dentro de si, em seu espaço, aproveitando o tempo para pensar e se preparar. Mas, no fim da tarde, o lugar se enche com o som de vozes. Há grandes mesas com 20 pessoas, verdadeiros grupos multiculturais, onde os atletas que competiram entre si contam os casos do dia, mandam tuítes e tiram selfies. É possível ver a formação de amizades para a vida inteira. Eu só pensei: ‘Parece uma igreja de manhã e uma festa à noite.’”

E esse clima de alegria e comemoração é exatamente o que ele prevê no Rio. O vôlei de praia, por exemplo, acontecerá nas areias de Copacabana, onde a água de coco será servida no coco verde. “Planejamos Londres como uma operação militar. Tentávamos atingir a perfeição”, diz ele. “No Rio, eles tentarão criar algo muito diferente. Será um ambiente descontraído, como o de uma festa. E se há uma coisa que o Rio sabe fazer é uma grande festa.”

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