A ética é mais importante do que a religião

Diz Dalai-lama, que completa 80 anos em 6 de julho  
 

Ele usa sandálias comuns e um sorriso bondoso no rosto. Tenzin Gyatso, o 14º dalai-lama, e eu nos encontramos mais de 30 vezes em 33 anos, e quase nunca entrevistei alguém tão empático. Ninguém ri mais do que ele. De acordo com as pesquisas, ele é a pessoa mais estimada do mundo, o que não surpreende. “Não tenho inimigos”, ele me disse há mais de 20 anos. “Apenas pessoas que ainda não conheci.”

Embora a ocupação chinesa o obrigue a viver fora da pátria tibetana desde 1959, ele não sente ódio dos chineses e de seus líderes. Pelo contrário. “É claro que rezo pelos líderes comunistas de Pequim”, diz. Apesar da idade, o dalai-lama confia que viverá para ver a solução do conflito da China com o Tibete onde nasceu.

Nos últimos anos, ele recomenda, com insistência cada vez maior, uma ética que transcenda a religião. Hoje com 80 anos, declara uma opinião sem dúvida peculiar num líder religioso: “A ética é mais importante do que a religião. Não chegamos a este mundo como membros de uma religião específica. Mas a ética é inata.”

Uma de suas crenças fundamentais é a de que, na busca da felicidade e no desejo de evitar o sofrimento, todos os seres humanos são iguais.

Pergunta: Após o ataque terrorista em Paris, o senhor comentou: “Há dias em que acho que seria melhor não haver religiões!” O que quis dizer com isso?

Dalai-lama: É claro que o conhecimento e a prática da religião são úteis, mas hoje já não bastam, como mostram, com clareza cada vez maior, exemplos no mundo inteiro. Isso é verdade em todas as religiões, inclusive no cristianismo e no budismo. Guerras foram travadas em nome da religião, “guerras santas”. Muitas vezes as religiões foram e ainda são intolerantes.

Por isso digo que, no século 21, precisamos de uma nova ética que transcenda todas as religiões. Muito mais importante do que a religião é nossa espiritualidade humana elementar. Ela é uma predisposição para o amor, a bondade e o afeto que todos temos dentro de nós, seja qual for a nossa religião. Pode-se viver sem religião, mas não se pode viver sem valores íntimos, sem ética.

O que lhe deu a ideia de que precisamos de mais espiritualidade do que as religiões tradicionais têm a oferecer?

Estou exilado na Índia há 56 anos. A Índia é uma sociedade secular que vive com uma ética secular. Mahatma Gandhi era intensamente religioso, mas também um espírito secular. Era um grande admirador de Jesus e do pacifismo do Sermão da Montanha. Ele é meu modelo, porque personificava a tolerância religiosa. Essa tolerância é uma força profundamente enraizada na Índia. Com pouquíssimas exceções, encontramos não só hinduístas, muçulmanos, cristãos e sikhs convivendo em paz, mas também jainistas, budistas, judeus, agnósticos e ateus.

Sei que há repetidos casos de violência local. Mas seria errado generalizar. Quando se leva tudo em conta, a sociedade indiana é pacífica e harmoniosa. Todas as linhas religiosas defendem o antigo princípio indiano da não violência, ahimsa, que deu tanto sucesso político a Gandhi. Ele foi a base da coexistência pacífica. Essa é uma ética prática e secular que transcende todas as religiões. Seria bom se o mundo de hoje se espelhasse nela!

Entre os 6 bilhões de “crentes” do mundo, muitos não levam a sério a própria religião.

Infelizmente, dentro desses 6 bilhões há muita gente corrompida que só busca satisfazer interesses próprios. Mas só haverá mais paz externa na Terra quando houver mais paz interna. Isso é verdade em todos os conflitos em andamento hoje: Ucrânia, Oriente Médio, Afeganistão, Nigéria. Em quase toda parte, o fundamentalismo religioso é uma das causas da guerra. Sabemos que nos arriscarmos numa guerra nuclear seria o mesmo que um suicídio coletivo. Basta isso para mostrar como dependemos uns dos outros.

A pesquisa neurobiológica moderna indica com muita ênfase que o comportamento altruísta é mais compensador do que o egoísmo. Ninguém precisa ser egoísta. Com a mesma facilidade, todos podem ser altruístas e dirigir sua atividade para o bem-estar dos outros. O altruísmo nos faz mais felizes!

A felicidade não é apenas uma coincidência; é uma capacidade que todo indivíduo tem à disposição. Todos podem ser felizes. A pesquisa moderna nos diz quais fatores têm influência sobre a felicidade. Passo a passo, podemos transformar os fatores que militam contra ela. Isso é verdadeiro, tanto para os indivíduos quanto para a sociedade como um todo.

A meta da ética secular é nos libertar do sofrimento momentâneo e de longo prazo e desenvolver a capacidade de apoiar o outro na busca da felicidade. Um aspecto da compaixão é a disposição espontânea de agir pelo bem-estar do outro.

Leia o artigo na íntegra na edição de julho da revista Seleções.

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