A grande fraude do azeite

A Itália produz a maior parte do melhor azeite do mundo, mas o rótulo da garrafa costuma mentir sobre o conteúdo
 

NUM OLIVAL BANHADO de sol da Apúlia, na Itália, Saverio De Carlo, 68 anos, de boina e olhos atentos atrás de lentes grossas, inspeciona suas azeitonas, como faz toda manhã há mais de 50 anos. As árvores seculares perto da cidade de Bitritto estão sendo podadas. Plantadas pelos ancestrais de Saverio, elas ficam entre amendoeiras, limoeiros e figueiras, e seus troncos retorcidos, cinzentos e grossos se elevam de um trecho ondulado do terreno, coberto de flores selvagens.

Aqui no calcanhar da Itália, o fruto é colhido de outubro a dezembro. Em poucas horas, é espremido no lagar, oficina com os aparelhos adequados para espremer frutos e reduzi-los a líquido, dos De Carlo. O óleo é separado da água do caldo numa centrífuga e (sem aditivos, sem calor, sem refino) se transforma no ouro esverdeado e luminoso de um azeite extravirgem. Este é o ouro dos gourmands, valorizado pelo sabor e pelo bem que faz à saúde – e pelas imagens que evoca das fazendas italianas, bucólicas e tradicionais como esta.

A Itália é a maior produtora mundial de azeite de oliva extravirgem de alta qualidade. Infelizmente, boa parte dele deixa de atender aos padrões reconhecidos e estabelecidos pelo Conselho Oleícola Internacional.

“O que se vê nas prateleiras do supermercado é frode!”, diz Grazia, 62 anos, mulher de Saverio, enquanto prepara o almoço na casa em cima do lagar. “Uma fraude!”

A Apúlia é a principal região do mundo a produzir azeite extravirgem, atendendo a uma imensa demanda no mundo inteiro. Mas a família De Carlo e os outros agricultores locais que fazem o verdadeiro azeite passam por dificuldades, incapazes de competir em volume e preço com a inundação de azeite inferior falsamente rotulado como extravirgem.

“Muita gente abandonou a terra”, diz Grazia. “Os conhecimentos estão se perdendo.” A família de Saverio tem o lagar aqui desde 1598, e ele se recusa a desistir. “As oliveiras são nossa história e paixão, por isso fazemos tantos
sacrifícios.”

A Europa consome 1,85 milhão de toneladas de azeite por ano. Mas, depois da colheita desastrosa de 2014, o azeite extravirgem ficou mais raro do que nunca na Itália, e, segundo o Coldiretti, maior grupo de lobby rural do país, a produção e distribuição de azeite com rótulo incorreto basicamente quadruplicou para manter a oferta.

Em geral, o azeite barato da Tunísia, do Marrocos, da Espanha e da Grécia é simplesmente rotulado como italiano. Esse azeite pode não vir de olivais italianos, mas pelo menos é feito de azeitonas. Já se descobriu azeite falsificado que contém diversos tipos de óleo, de canola, avelã ou soja, colorido com clorofila.

Quase sempre o “extravirgem” das prateleiras é azeite virgem mais barato misturado ao óleo extraído do bagaço de azeitonas maduras com o uso de solventes e depois adulterado, desodorizado e colorido com betacaroteno.

Antonio Barile é um dos representantes da CIA, a Confederação Italiana de Agricultores. “Quando consideramos que a Itália produz, em média, 400 mil toneladas de azeite extravirgem por ano”, diz ele, “mas vende de 900 mil a 1 milhão de toneladas de extravirgem italiano, podemos ver o tamanho do esquema.”

Fazer azeite extravirgem italiano pode custar, pelo menos, seis euros o litro, mas em alguns supermercados da Itália ele chega a ser vendido por apenas três euros.

“Para atender à demanda com esse preço impossível”, diz Barile, “algumas grandes corporações o misturam com azeite de má qualidade. A Apúlia produz o Chanel N-º 5 dos azeites, mas só de 15% a 20% dele é engarrafado e vendido por produtores independentes. Fora o que é consumido no local, o restante é levado às fábricas e usado para disfarçar o azeite ordinário de má qualidade.”

E continua...

“Os supermercados e, acima de tudo, as grandes empresas, são estúpidos, porque é impossível produzir azeite de oliva extravirgem em massa. Faz bem à saúde, e o público está disposto a gastar com saúde. Vender o azeite autêntico a um preço justo seria uma estratégia mais lucrativa.”

Se ele está zangado?

“Estou furioso. Porque este é um mundo de organizações poderosíssimas, com grande influência sobre as decisões do governo. Elas mudam as regras e as leis.”

Fala-se de corrupção no mais alto nível e da Máfia. Se ele já teve medo ou se sentiu intimidado?

“Vivo normalmente”, diz, dando de ombros. “Talvez não seja sensato.”

A Interpol diz que a Máfia está muito envolvida no setor e usa o lucro fácil para financiar outras atividades ilegais, como o tráfico de seres humanos.

“A Máfia, principalmente no sul da Itália, possui muita terra apra cultivo agrícola e controla ou influencia a atividade legal e ilegal”, diz o escritor Tom Mueller, que mora na Itália e cujo livro Extra Virginity: the Sublime and Scandalous World of Olive Oil (Extravirgindade: o mundo sublime e escandaloso do azeite de oliva) lança luz sobre as práticas enganosas.

Nos últimos anos, o controle e a fiscalização aumentaram, e uma série de operações de autoridades locais e nacionais – como a Diretoria Antimáfia do Distrito de Bari – nas fábricas italianas confiscou ou impediu a venda de milhares de toneladas de azeite com rótulo errado.

“Por sorte, a Itália está na vanguarda da tecnologia investigativa e científica para identificar o bom e o ruim”, diz Mueller.

As autoridades usam grampos telefônicos e vigilância sob disfarce, mas, para pegar os culpados, há mais sessões de degustação bastante sóbrias do que operações dramáticas. O azeite extravirgem apresenta uma série de características especificadas pelo Conselho Oleícola Internacional, algumas delas químicas, outras organolépticas (relativas ao sabor e ao aroma). Por exemplo, para ser classificado como “extravirgem”, o azeite precisa ter “acidez livre” de, no máximo, 0,8% do total de ácido oleico.

Mueller explica que o azeite inferior pode ser modificado para atender os requisitos no exame químico: “No entanto, os testes de paladar feitos por grupos de oito testadores treinados são extraordinariamente objetivos e têm muita robustez estatística. Basta a presença de apenas uma das 17 falhas de sabor especificadas e o azeite não será extravirgem.”

O escândalo mais recente foi revelado depois de análises realizadas pelo laboratório de química da Agência de Alfândegas e Monopólios, em Roma, para a revista Il Test-Salvagente, dirigida a consumidores. Em maio de 2015, os exames encontraram problemas em nove de 20 marcas populares nos supermercados.

Por ordem de um promotor de Turim, a análise foi repetida pela Unidade de Saúde e Antiadulterações dos carabinieri. Então, foi descoberto que alguns azeites vendidos por não eram extravirgens como constava no rótulo.

Em junho deste ano, a Autorità Garante della Concorrenza e del Mercado, órgão italiano que regula a concorrência entre empresas de diversos setores, cobrou de cinco marcas de azeite multas num total de quase 1 milhão de euros por “prática comercial enganosa”.

Esses produtores teriam enganado os consumidores ao divulgar a condição de extravirgem, tanto no rótulo quanto na propaganda, quando na verdade os azeites só se qualificariam para a condição inferior de virgem.

No último dia 8 de junho, a distribuidora Lidl, proprietária da marca Primadonna, recebeu uma multa de 550 mil euros, cifra influenciada pelo fato de que a Autorità della Concorrenza descobriu que “a prática comercial revelada há um ano [na época da multa] ainda é praticada”.

A Deoleo, proprietária das marcas Sasso Classico, Carapelli il Frantoio e Bertolli Gentile, foi multada em 300 mil euros por produtos que, em maio passado, foram finalmente retirados das prateleiras dos supermercados. A Pietro Coricelli recebeu multa de cem mil euros e recolheu o azeite adulterado em dezembro do ano passado.

Todas as empresas multadas negaram o crime e questionaram a confiabilidade dos exames feitos pelos grupos. Seus argumentos foram rejeitados pelos reguladores da Autorità della Concorrenza.

As empresas têm o direito de recorrer ao Tribunal Administrativo Regional de Lazio até 60 dias depois do julgamento e podem também apresentar recurso “extraordinário” ao presidente italiano em até 120 dias.

Em toda a Europa, novas abordagens científicas para determinar a pureza do azeite estão sendo aplicadas. Há um exame inovador e rapidíssimo por espectroscopia de infravermelho, inventado pelo cientista de alimentos Christian Gertz, e uma espécie de “nariz eletrônico” portátil para farejar falsificações óbvias, criado por uma equipe da  Universidade de Estremadura, na Espanha.

Em março passado, documentos de transporte, recibos de pagamento e instruções para adulterar azeite recolhidos em operações nas fábricas do Consórcio de Azeite Extravirgem da Toscana indicaram que, na verdade, o azeite “toscano” vinha principalmente da Grécia e da Apúlia. Mas foi graças a novos avanços da análise do DNA que as autoridades conseguiram provar isso de forma conclusiva. Mais tarde, 47 pessoas foram investigadas por falsificação e fraude comercial.

Continuar colando rótulos italianos em azeite estrangeiro vai ficar ainda mais difícil: o Instituto Poligráfico e a Casa da Moeda da Itália criaram um rótulo inteligente, com selo numerado e QR-code ligado a informações sobre a origem e os fornecedores, que visa dar, nas palavras da Confederação Italiana de Agricultores, um “golpe letal” nos fraudadores.

Os pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Federação Suíça, em Zurique, criaram um marcador invisível: nanopartículas magnéticas microscópicas de DNA que guardam informações sobre a proveniência e a série de fornecedores. Embora imperceptível quando mergulhada numa garrafa de azeite, ainda assim a amostra pode ser facilmente pescada com um ímã para verificar a autenticidade.

Enquanto isso, o governo italiano anuncia planos de aumentar as sanções, em especial contra os recalcitrantes, e está investindo 32 milhões de euros para apoiar os produtores por meio do Plano Setorial Nacional do Azeite.

Na Apúlia, Saverio e Grazia De Carlo têm ideias próprias para virar a maré. Novos cursos de poda para reviver conhecimentos perdidos são bem-vindos, mas, segundo eles, as duas melhores armas na luta contra a fraude são a geração mais nova e a informação dos consumidores.

Os filhos chegam para o almoço – alcachofra, queijo burrata, postas de bacalhau e lampascioni (bulbos de jacinto-das-searas) dos olivais, banhados em azeite extravirgem feito em casa. Francesco, 35 anos, tem um diploma de provador de azeite, e Marina, 38, estudou marketing em Milão. Grazia brinca que corre azeite nas veias dos filhos. Como no caso dos produtores de vinho, seu futuro depende de um público com discernimento.

Francesco despeja um pouco de azeite num copo azul e demonstra como prová-lo corretamente. Ele é feito de azeitonas coratinas, valorizadas por terem um  teor de antioxidantes bastante elevado, com propriedades que combatem o envelhecimento e as inflamações. O sabor é amargo e pungente, marca do azeite extravirgem de alta qualidade.

“Amo minha região, a minha terra”, diz Francesco. “É preciso saber que, se precisarmos cortar uma árvore, terei um grande peso na consciência. Todo ano, se cuidarmos dela, a árvore produz. Há uma ligação sentimental.”

Lá embaixo, no escritório do lagar, as paredes são forradas de prêmios emoldurados e estantes cheias de medalhas e troféus, um deles dedicado a Marina e Francesco “por paixão e sacrifício”. Ao lado de um mapa-múndi, exibida com destaque, está uma frase de Einstein que poderia ter sido escrita pensando nas dificuldades enfrentadas pelos produtores de azeite da Itália: “A crise pode ser uma verdadeira bênção para qualquer pessoa, para qualquer país, pois todas as crises trazem progresso.”

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