Moda também é cultura

Por que os traços divertidos e lúdicos do estilista Ronaldo Fraga fazem tanto sucesso entre as crianças.
 
A primeira peça de roupa que o estilista Ronaldo Fraga tem lembrança de sua infância tinha a estampa de uma banda, com a frase “para ver a banda passar”. Sempre que um adulto o pegava no colo, cantava o trecho da famosa marchinha. “A Banda”, de Chico Buarque, foi a primeira música que Ronaldo aprendeu a cantar, e as palavras da frase, as primeiras que ele conseguiu ler. Atualmente, as mais de 900 milhões de roupas infantis que são produzidas por ano no Brasil correspondem a 20% de todo o setor têxtil, segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). Em um mercado tão vasto, Ronaldo Fraga se diferencia por selecionar elementos da cultura brasileira. Ele gosta de contar histórias para as crianças, por meio das roupas.
 
Confira, abaixo, a entrevista completa do estilista.
 
Seleções: Como surgiu a ideia de fazer roupas para crianças?
Ronaldo Fraga: Foi logo quando meu primeiro filho nasceu. Embora o lúdico e o colorido sempre estivessem em meu universo, só pensei em como isso funciona para as crianças quando fui pai. Quis fugir do senso-comum de azul para meninos e rosa para meninas. A primeira roupa que fiz foi um macaquinho para meu filho, na época, recém-nascido. Ele era verde limão com detalhes e costuras em vermelho. Na frente, havia algumas ovelhinhas vermelhas. A peça me marcou, porque eu nunca tinha feito roupas infantis. Queria algo bem colorido e vibrante. Esta primeira roupa resume bem o meu trabalho. Hoje, faço peças de fibras naturais, com 100% linho ou algodão. O marco é que a cultura brasileira está sempre presente.
 
Seleções: Como a moda influencia na criação das crianças?
RF: Quando procuro trazer outros elementos, principalmente da cultura brasileira, acredito que a criança coloca estes códigos em suas vidas, por meio da brincadeira. Vivemos em um mundo perversivo. Uma criança de seis anos, hoje, tem vontades que uma mesma criança, há 15, 20 anos atrás, não tinha. Além disso, por passarem muito tempo fora de casa, trabalhando, os pais acham que sempre falta alguma coisa a oferecer aos filhos. Eles acham que são bens materiais, mas nunca pensam que é afeto. Hoje, eu vejo um exagero no controle das crianças, que escolhem até o detergente no supermercado. Além disso, elas são influenciadas pela televisão, veículo que as bombardeia direto.
 
Seleções: A moda infantil deve ser baseada na adulta?
RF: Não pode haver exageros. Não podemos esquecer que fazemos roupa de criança para criança. Precisamos, primeiramente, do conforto. Em seguida, do elemento lúdico. Uma roupa pode marcar a memória afetiva de uma criança. Mesmo que sutilmente e nas entrelinhas, é importante falar de educação e cultura. Você nunca verá uma frase em inglês na minha marca. As crianças precisam aprender as palavras lindas que temos no português e conhecer as imagens que nosso país tem a oferecer.
 
Seleções: Você acredita que vende mais do que outras grifes de roupa adulta que também entraram no mundo infantil pelo fato de suas roupas carregarem elementos culturais?
RF: Nunca me preocupei com isso. Logo no início, muita gente me falava que o mercado quer roupas infantis eróticas. Eu não concordava. Sempre quis fugir da armadilha da erotização. Sou extremamente crítico em relação à forma como vejo as marcas vestindo as crianças. Meninas de cinco anos já usam salto, maquiagem, top e querem ser modelo. Considero a erotização perigosa e ela tem acontecido muito na moda infantil brasileira. Investir neste outro viés para as peças de roupas para crianças foi uma aposta. Hoje, o setor infantil do Ronaldo Fraga tem um lugar significativo na marca.
 
Seleções: Você gosta mais de fazer roupas para crianças ou adultos?
RF: Eu gosto de fazer roupa. Utilizo o mesmo princípio. Adoro contar histórias através das peças que construo. Para mim, roupa também é interpretação de texto. Lembro da primeira peça que tenho registro: com uma banda estampada e o escrito “Para ver a banda passar”. Todo adulto cantava a música do Chico (Buarque), quando me pegava no colo. “A Banda” foi a primeira música que aprendi a cantar. E o trecho escrito na peça, o primeiro que aprendi a ler. Esta é a roupa que está em minha memória afetiva. Eu penso nisso ao criar para crianças. O que essa roupa tem ou deveria ter para que seja lembrada para o resto da vida.
 
Seleções: Qual é a maior dificuldade de se desenhar para o público infantil? É mais difícil do que para os mais velhos?
RF: A construção da peça é trabalhosa. As pessoas nem imaginam, porque pensam que pelo tamanho menor, gasta-se menos tecido e acaba sendo mais barato. Mas, na realidade, o infantil há mais tamanhos, como de 0 a 12 anos, e isso dificulta mais o corte. Além disso, as crianças têm uma mudança muito rápida de códigos. Uma de cinco anos tem um desejo que uma de seis talvez não tenha. Elas crescem da noite para o dia. Entender e acertar essas minúcias é uma grande questão, que nem sempre é fácil.
 
Seleções: Como é a recepção das crianças a esse estimulo extra que você coloca nas roupas?
RF: Elas acham que eu sou um croqui. A própria imagem do criador, em geral, já é divertida. Meu estilo sempre foi mais assimilado pelo público infantil do que pelos adultos. Já havia crianças em minha loja, mesmo antes de ela oferecer roupas infantis. Elas adoram o que faço. Acham tudo muito divertido. Eu tenho um laboratório em casa, que são meus filhos, e isso me ajuda. Sempre pergunto o que eles gostariam de vestir. E eles respondem coisas como estampas assustadoras, de mulas sem cabeça, por exemplo. Se eu tenho um estilo de criação livre na linha de adulto, ele é mais livre ainda no infantil. Enquanto eu desenhar como se estivesse em meu caderno de ilustrações, continuarei fazendo.
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