Fortalezas ambulantes

Vejo nas ruas um número cada vez maior desses carros que parecem jipes gigantescos, umas caminhonetes imensas, com rodas que lembram as de um trator.
 

Vejo nas ruas um número cada vez maior desses carros que parecem jipes gigantescos, umas caminhonetes imensas, com rodas que lembram as de um trator. Parecem carros da polícia. Ou veículos funerários, pois muitos são pretos. Embora ouça muita gente dizer que daria tudo para ter um deles (principal­mente jovens), fico pensando na transformação que isso significa: antigamente, os carros mais cobiçados eram os modelos espor­tivos, conversíveis, automóveis pequenos, em geral de apenas dois lugares, com linhas suaves, arredon­dadas. Eram tempos mais delicados.

Sei que nesses carros grandalhões os motoristas se sentem mais seguros, mas acho também que às vezes olham o mundo com certa arrogância. Trancados em suas fortalezas ambulantes, às vezes até blindadas, com o rosto indevassado pela película negra dos vidros, tendem a praticar uma direção mais agressiva. Têm um poder maior.

E a questão não está apenas no tamanho do veículo. Até os faróis hoje são diferentes. Outro dia, estava parada num sinal de trânsito, na Avenida Delfim Moreira, na orla do Leblon. Com os vidros fechados e o ar ligado, distraída, ouvia bossa no­va baixinho. Acabara de anoitecer. Lá por trás do Morro Dois Irmãos, uma última réstia de luz avermelha­da fazia prever novos dias de sol, de ar limpo e fresco, nessa beleza de inverno que de vez em quando temos no Rio. Era nisso que eu pensava, em suavidade e delícia, quando, de repente, surgiu atrás de mim um facho de luz fortíssimo. Fiquei ofuscada, confusa.

A luz era de um branco azulado, daqueles que ardem a vista. Ao entrar pelo retrovisor e me bater no rosto, estilhaçou num segundo meu mundo de delicadeza. Era como naqueles filmes de ficção científica, em que o disco voador dá um rasante na estrada e encosta atrás do carro do mocinho. A custo, fixei o olhar no retrovisor. A luz, é claro, pertencia ao carro parado atrás de mim. Seus faróis não pro­du­ziam a luminosidade amarelada que sempre emanou dos faróis, mas sim aquele facho agressivo, pene­trante e azul.

Quando o sinal abriu, tomei a pista da direita e dei passagem. Os dois fachos de luz passaram varrendo o asfalto, parecendo a espada de laser de Darth Vader em Guerra nas estrelas, trazendo atrás de si um carro enorme, todo preto, que logo desapareceu. E, mais uma vez, fiquei eu pensando. Há alguns anos, era proibido dirigir dentro do perímetro urbano com faróis ligados. Já haven­do a luz das ruas, usava-se só a lan­ter­na, ou farolete, para não atrapalhar outros motoristas. Farol, não. Farol alto, então, jamais. Isso era lei. Dava multa. Havia certo cuidado com o outro. Hoje, os carros novos, principalmente os importa­dos, estão vindo com essa luz azul, que deve ser boa para quem usa, mas que cega quem vai na frente ou vem em dire­ção contrária. E quem se importa?

Já soube também que alguns carros novos têm um computador de bordo que faz os faróis acenderem sozinhos em ambiente mais escuro. Não precisa nem ser túnel ou estar anoitecendo. Se o tempo escurecer um pouco ou se o motorista passar por uma rua mais sombreada, pronto: o farol é ativado. Notem bem, não é o farolete ou a lanterna.

É o farol mesmo. Baixo, é verdade, mas farol. E, no caso de alguns carros, certamente é esse farol azul, que vai cegando a todos pelo caminho. Mas – e outra vez eu pergunto – quem se importa?

As pessoas se adaptam aos novos tempos, as fábricas, também. De dentro de suas casamatas com rodas, protegidas pelo anonimato dos vidros com filme escuro, as pessoas despejam seus fachos de luz como se fossem lanças. Estão todas armadas, umas contra as outras.

É a guerra urbana.

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