Uma comemoração para todos

Um jovem muçulmano descobre o espírito e a alegria do Natal
 

Pela janela avarandada da casa, vejo minha família, os Mouallem, montando a árvore de Natal. Estamos no norte de Alberta, no Canadá, e o ano é 1997. A neve se amontoa como dunas árticas no gramado da frente.

Meu irmão Ali, o mais alto, acabou de coroar a árvore com uma estrela. Depois de contar até três, nossa mãe acende as luzes. Nosso sorriso efervescente irradia quase o mesmo brilho. Seria um cartão de Natal perfeito se não fossem alguns detalhes importantes.

Para começar, não há crianças pequenas. Com 11 anos, sou o mais novo de todos, com três anos de diferença de meu irmão, o que não seria estranho se essa não fosse nossa primeira árvore de Natal. Ah, não é uma árvore; é a planta decorativa mais robusta que conseguimos enfeitar sem que desmoronasse com o peso.

E também não é Natal. É Ramadã, o mês sagrado do islamismo, época de jejum, oração e contemplação, e não de brilhos e júbilo. Além disso, nem é dezembro. Como o calendário islâmico recua onze dias por ano, foi no final de janeiro de 1997 que montamos a decoração.

Outra coisa que não dá para ver é que é segredo. Meu pai viajara para sua pátria, o Líbano, e não sabia desse breve contato com a festa cristã. Em nossa casa, não comemorávamos o Natal. Mas, com papai viajando, minha irmã Janine convenceu mamãe que seria totalmente halal se cruzássemos a fronteira festiva – só dessa vez.

– Faremos o Ramadã de um jeito diferente este ano – disse ela a mim e Ali. – Faremos um Ramadã de Natal.

Filhos de imigrantes não cristãos costumam crescer com uma visão diferente do Natal. Mesmo depois que puxam a cortina e mostram que Papai Noel praticamente não passa de um cartão de crédito, a situação não fica mais fácil. Abrir mão do Natal se torna uma escolha, uma decisão de não se entregar à melhor festa do ano, uma festa sem igual.

Algumas crianças podem supercompensar essa ausência, como eu. Isso significava exagerar para meus amigos na zona rural do Canadá a alegria do “Natal muçulmano”.

Essa festa é mais conhecida como Eid al-Fitr e marca o novo ciclo lunar no fim do Ramadã. Nos primeiros anos de minha vida, Eid significava ir à mesquita e talvez ganhar um suéter novo. Mas, ao chegar à idade em que se compreende o conceito de moeda, me consideraram pronto para o presente tradicional de dinheiro vivo.

Vinha de tios e tias, em notas azuis, roxas e verdes. Só era preciso beijar os dois lados do rosto do parente mais velho e recitar uma frase em árabe: “Que todo ano o encontre com boa saúde.” Eu adorava ir à mesquita na manhã de Eid porque significava mais rostos e mais dinheiro.

Mas, no islamismo, quando se chega à puberdade, é preciso jejuar durante o Ramadã, do nascer ao pôr do sol. Nada de comida e bebida nas horas diurnas durante um mês. Meu moral despencou.

Quando eu tinha 11 anos, o Eid não chegou com a mesma alegria de antes. Ao sentir o declínio do entusiasmo, Janine inventou com mamãe o plano natalino.

Alguns dias antes do Eid de 1997, minha mãe entrou em meu quarto quando eu embrulhava seus presentes. Enfiei tudo debaixo da cama, como um drogado numa batida policial. Ela começou a me interrogar. “Está guardando segredos de sua mãe?” Mostrei-lhe o frasco de perfume semiembrulhado. Ela se esquecera do Ramadã de Natal.

É óbvio que para ela não era natural, mas mesmo assim ela foi em frente e fingiu surpresa na manhã de nosso Eid al-Fitr–Natal. Reencenamos os estudados programas especiais de Natal transmitidos durante anos pela TV em nossa sala. Sentados no chão, cercados por pilhas de papel de embrulho e uma planta muito especial, trocamos presentes e, depois de cada surpresa, um abraço. Fui inundado pelo calor e aconchego da festa.

Meus parentes foram muito gentis ao me dar dinheiro durante toda a minha infância, mas presentes em dinheiro são generosidade, não compreensão. Os presentes, quando bem escolhidos, nos levam realmente a pensar em quem faz parte de nossa vida. Dar presentes pode estar impregnado de consumismo e capitalismo, mas mesmo assim é a linguagem do amor.

Mais de uma década se passaria até eu ter outro Natal. Só quando conheci minha esposa Janae, sete anos atrás, tive meu primeiro Natal de verdade, o Natal da família Jamieson. Luzes, guirlandas, eggnog: em dezembro, a casa deles é uma exposição de clássicos natalinos.

Em minha primeira manhã de Natal com eles, entrei e vi trinta presentes empilhados em torno da árvore, apesar de os Jamieson serem apenas quatro. E onze meias! “Estamos esperando mais parentes?”, perguntei. Não, explicou minha futura sogra. Três eram para os gatos vivos, duas em memória dos gatos falecidos, uma para meu gato em casa. E a última? “É a sua”, disse ela.

Sentei-me junto à árvore e abri um presente misterioso do “Papai Noel”. Tomei eggnog de rum enquanto o disco de Natal de Mariah Carey tocava ao fundo. É cafona e é maravilhoso. O espírito do Natal me contaminou e se espalhou até minhas extremidades.

No entanto, até recentemente, meu amor pela festa era meu mais profundo e sombrio segredo de família. Dei muitas notícias delicadas a meus pais, mas a mais difícil foi sair do armário natalino.

Alguns dezembros atrás, convidei-os à minha casa. Contra o pano de fundo de nossa árvore cintilante e das meias penduradas acima da lareira, expliquei-lhes que o Natal pertence a todos nós, cristãos, muçulmanos, ateus, que é uma festa não religiosa que todos podem aproveitar. O Natal me deixa muito feliz, então por que combatê-lo?

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