O que o Minecraft me ensinou sobre meu filho

Zac, um menino autista, entendeu o Minecraft desde o início. E o Minecraft entendeu Zac.
 
Como uma versão digital do LEGO, o Minecraft apresenta um vasto mundo de blocos para ser explorado pelos jogadores.

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Não lembro o que construímos primeiro. Provavelmente foi algum tipo de cabana de madeira e pedra, feita às pressas – só para nos proteger dos zumbis e das aranhas gigantes. Deve ter sido destruída e esquecida pouco depois. Mas uma coisa logo ficou clara. Zac entendeu o Minecraft.

 

Isso foi em 2012. Zac, meu filho mais velho, tinha 8 anos. Nós já sabíamos, talvez desde seus 2 anos, que havia algo diferente nele; alguma coisa não estava certa. Ele sempre tivera problemas com o vocabulário e se virava com pouquíssimas palavras e frases, enquanto as crianças da idade dele se tornavam cada dia mais eloquentes. Zac também ficava nervoso em lugares barulhentos, como o parquinho da escola, e tinha dificuldade em participar de jogos e brincadeiras; ele não compreendia as regras. Tudo na vida se deslocava a uma velocidade acelerada demais para Zac. Era de partir o coração vê-lo sendo deixado para trás.

 

Mas do instante em que pegou meu iPad pela primeira vez e começou a deslizar os dedos pela tela, Zac pareceu lidar bem com a tecnologia. Ele aprendeu a usar o controle remoto da televisão com 3 anos, mudando disfarçadamente para os canais de desenho animado quando não estávamos olhando. Ele dominava com rapidez todos os aplicativos para crianças que eu baixava no tablet ou no smartphone. Tudo isso fazia sentido para mim e minha mulher; tínhamos começado a suspeitar que ele estivesse dentro do espectro autista, e, tendo lido tudo o que podíamos sobre o assunto, tivemos acesso a uma informação-chave: muitos programadores e empreendedores digitais talentosos são autistas. Há algo no distúrbio que torna a tecnologia reconfortante e acessível. Talvez porque muitas pessoas no espectro sejam extremamente concentradas e lógicas, e computadores são receptivos a isso. Os computadores propiciam um espaço seguro – não fazem nada que seja imprevisível.

 

Eu já tinha ouvido falar de Minecraft, claro. Lançado primeiro para PC pela Mojang, estúdio sueco de desenvolvimento de jogos, tornou-se logo um sucesso cult e, em seguida, um grande fenômeno global. Basicamente uma versão digital do LEGO, Minecraft apresenta aos jogadores um vasto mundo de blocos a ser explorado – e, aonde quer que você vá, pode coletar materiais com os quais produzir ferramentas e construir edificações. Nele não há objetivo, história, competição. Você faz o que quer – e pode se juntar aos amigos no mesmo mundo, trabalhando juntos, descobrindo juntos.

 

Como jornalista de games, com frequência recebo versões beta de jogos, e a Microsoft me mandou a versão para Xbox 360 do Minecraft, mais fácil de jogar. Então pensei: Ei, eu deveria tentar isso com o Zac. Eu não fazia ideia de como seria; aquilo era tão diferente de tudo o que tínhamos jogado até então.  Zac, o irmão mais novo, Albie, e eu ficamos sentados, juntos, esperando o mundo carregar. E jogamos por umas duas horas. Aquelas duas horas mudaram nossas vidas.

 

Eis o motivo. Zac entendeu a essência do Minecraft de imediato – simplesmente entendeu. Compreendeu seu lugar naquele mundo, o que cada ferramenta fazia, soube como construir, como garimpar à procura de novos materiais, como tudo se conectava. Minecraft é, na verdade, um sistema criativo no qual cada objeto desempenha um papel distinto, mas interligado. Pás e picaretas escavam, pedra é para construir, carvão alimenta a fornalha para que você possa fazer vidro ou cozinhar; animais fornecem carne. Tudo faz sentido – é como o interior de um relógio: os componentes se encaixam e engrenam. Zac entendeu o mecanismo do jogo; ele conseguia interpretá-lo. Não era assustador nem confuso, era preciso e acolhedor. Enquanto ele jogava, eu o observava, ouvia seus comentários sobre o que estava fazendo, experimentando, rindo, compartilhando. Nós acabamos construindo uma mansão imensa com dezenas de pequenos cômodos e corredores.

 

Mas nós também estávamos construindo outra coisa. Eu tinha muita dificuldade em entender a forma como Zac via o mundo. Quando ele se recusava a sair de casa até que detalhássemos nossos planos para o dia, quando ele corria e se escondia de pessoas que não conhecia ou de experiências com as quais não tinha familiaridade, quando se recusava a comer qualquer coisa que não fossem os mesmos dois pratos básicos de todos os dias – antes de Minecraft, eu ficava irritado e frustrado. Mas, ao observá-lo jogando, ao ver como ele confiava naqueles sistemas interligados bastante simples, aprendi que meu filho ansiava por ordem, ele ansiava por controle.

 

Mais do que controlar, ele queria ser criativo. Zac precisava disso. Ele não tinha paciência para desenhar com lápis e canetas; uma folha de papel em branco era algo aterrorizante para ele. Mas em Minecraft, com todos os blocos e engenhocas diferentes, ele tinha confiança para se expressar. Eu achava que ele não dava a menor importância para artes ou imaginação, mas eu estava errado – ele dava sim, só precisava de ferramentas diferentes. Ele construiu torres altas e palácios de vidro peculiares. Construiu covis subterrâneos cheios de lobos. Construiu castelos em ilhas e pontes em montanhas. Aprendeu a produzir máquinas simples utilizando a versão de eletricidade do jogo. Ele construiu e cresceu como pessoa. Às vezes, quando fico observando Zac brincar com o irmão, começo a chorar.

 

Nos últimos três anos, centenas de escolas pelo mundo passaram a usar Minecraft como plataforma educacional. As crianças aprendem geografia, geologia, física, agricultura e arquitetura jogando com os professores. Em 2013, uma escola na Suécia tornou o jogo parte obrigatória do currículo. Ano passado, o governo da Irlanda do Norte decretou que todas as escolas recebam uma cópia gratuita. Eu fico empolgado com isso. Acho fantástica a ideia de ensinar as crianças em uma língua que elas entendam. Tive uma experiência bastante pessoal nesse sentido.

 

De certa forma, foi por esse motivo que eu quis escrever O menino feito de blocos. Acho que senti uma necessidade quase catequizante de dizer às pessoas como os jogos podem ser positivos e criativos – eles não são algo a temer, não são perda de tempo. Eles mudam as pessoas, dizem coisas que os filmes e os livros não conseguem dizer. Isso é algo que vivi de perto – o mais perto que se pode chegar.

 

O que um videogame me ensinou sobre meu filho? Muitas coisas. Tanto que não sei nem por onde começar. Como já disse, desde o início percebemos que  Zac entendeu o Minecraft. E, de um jeito estranho que não sei exatamente como explicar, o Minecraft entendeu o Zac.

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