Sexismo no cinema

Carey Mulligan, estrela de As sufragistas, filme ferozmente feminista, fala de sexismo no cinema
 

O filme As sufragistas, que abriu o Festival de Cinema de Londres em outubro passado, é o primeiro filme a contar na telona a história das sufragistas britânicas. É tão envolvente que não dá para entender por que os estúdios não corrigiram antes esse descuido.

“Não acho que seja descuido”, afirma Carey. “Acho que temos uma indústria cinematográfica sexista. Em geral, histórias sobre mulheres não são contadas.”

Carey Mulligan, que ganhou um prêmio BAFTA da Academia Britânica de Cinema e Televisão, foi indicada a um Oscar por seu papel em Educação e é embaixadora da instituição de caridade War Child, tudo isso antes dos 30 anos. É sorridente e parece normal e tranquila no vestido longo de estampado floral. No filme, ela é Maud, dona de casa que trabalha numa lavanderia. Embora fictícia, a personagem é um símbolo adequado das mulheres da época.

“O bom em Maud é que ela começa a história sem se envolver na causa de jeito nenhum”, explica Carey. “Ela é de uma família operária vitoriana. Não tem nenhum interesse no movimento sufragista. Mas, ao conhecer essas mulheres e ser inspirada por elas, encontra sua voz.”

Para alguns, o filme é surpreendentemente chocante. Numa sequência do início, uma multidão diante do Parlamento, formada por mulheres irritadas com a rejeição da lei que lhes daria direito ao voto, é violentamente atacada por policiais com cassetetes. Se Carey se surpreendeu quando pesquisou o papel?

“Sim, muita coisa foi surpreendente. Eu sabia das greves de fome das mulheres na prisão, por exemplo, mas
investigar o que a alimentação forçada significava para elas me abriu os olhos. E eu nada sabia sobre a destruição de propriedades durante os protestos. Imagine entrar hoje no Victoria and Albert Museum e cortar um quadro com uma faca!”

Quer dizer então que o movimento das mulheres foi negligenciado no ensino escolar de história britânica?

“Eu me lembro da página de um livro didático que falava dos movimentos sociais da Grã-Bretanha vitoriana, mas ninguém dava muita atenção a isso. Sem dúvida, quando mocinha nunca senti orgulho na hora de votar.”

Quando se considera o elogiado desempenho de Carey, é fácil esquecer como o sexismo afeta as atrizes. E nenhuma de suas conquistas foi fácil.

“Antes de Longe deste insensato mundo, fiquei um ano e meio sem trabalhar”, revela a atriz. “Ou aceitamos papéis de que não gostamos muito, ou esperamos. Hoje eu posso esperar. Mas essa é uma posição privilegiada.”

Na discussão dos problemas enfrentados pelas atrizes, mencionamos rapidamente o teste de Bechdel: pense num filme com pelo menos duas personagens femininas que tenham nome e conversem entre si sobre um tema que não seja homens. Muitos filmes são reprovados nesse teste. As sufragistas é aprovado já nos primeiros cinco minutos.

Carey ressalta outro aspecto da importância contemporânea do filme: a personagem do inspetor Steed, da Polícia Metropolitana de Londres. Desde o começo, ele acompanha as sufragistas, fotografa-as em segredo e cria dossiês. “Foi a primeira vez que a polícia de Londres usou esse tipo de vigilância, e logo contra mulheres”, revela.

A devastadora cena real da sufragista Emily Davison caindo sob os cascos do cavalo do rei em 1913 foi a primeira do gênero a correr mundo. Essa e a de seu funeral, que encerra o filme, tiveram impacto global. “Usamos o ambiente de 1912 para falar do período que vivemos hoje”, diz Carey. “Nunca senti que estávamos fazendo um documentário sobre fatos antigos; o filme trata da situação atual.”

Dá para perceber que Carey Mulligan sabe que As sufragistas é um dos seus melhores trabalhos como atriz. Dez anos depois da estreia na carreira, sua estrela não mostra sinais de declínio.

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