Uma lição de amor

A adoção de Pitchie salvou a vida do cãozinho e trouxe alegria para sua nova família.
 
Certa manhã, passei de carro pela rua de Maria Matu e espantei-me ao vê-la no portão, ao lado de uma desconhecida cara cabeluda que olhava atentamente o movimento da rua – era um cachorrão grande, branco e peludo. Ele estava em pé, com as patas dianteiras apoiadas no muro da casa, e mais parecia uma pessoa a admirar a sua vizinhança. Buzinei para Maria e ela fez sinal de que queria falar comigo para explicar a presença do novo morador na sua casa.

Assim que pude, telefonei para Maria e ouvi a história do animal. Uma amiga dela tinha visto o cachorro numa favela de um bairro próximo. O pobre vivia amarrado e malcuidado e sua cama era um rolo de arame farpado, onde ele vivia amarrado. Seu corpo estava cheio de lesões ocasionadas pelas farpas do arame e, em vários lugares, pedaços de metal estavam encravados na pele. A dona da criatura, sabe-se lá por que razão inexplicável,  não o suportava, o que facilitou a sua retirada daquele local úmido, enlameado e infeliz. Na hora combinada para levá-lo dali, a amarga mulher disparou: “É muita sorte dele a senhora chegar hoje à noite, porque eu já ia mesmo acabar com esse miserável!”

O coitado estava com uma aparência deplorável, todo molhado e sujo de lama. Como que entendendo a ameaça por trás daquelas duras palavras, ficou em pé com as patas apoiadas no peito de Maria, num abraço de alguém que parecia adivinhar que o futuro era uma promessa de dias mais felizes e que, dali em diante, desprezo, desrespeito e crueldade não mais fariam parte da sua história. Saiu dali para sempre, sem sequer olhar para trás, acompanhado e protegido por um anjo de carne e osso, que não apenas teve compaixão dele, mas procurou agir para pôr um fim a tanta aflição.

No dia seguinte, fui pessoalmente conhecer o peludão. Estava preocupada com a superlotação na casa de Maria, que naqueles dias tinha sido ameaçada pela Prefeitura de ter seus animais reduzidos a um número “aceitável”. Maria deu ao cachorro o nome de Pity. Ela contou que ele era muito amável e, consternada, disse que ele era mudo. Pity não latia nunca.

Combinamos que eu tentaria uma boa adoção para Pity, cujo nome eu passei a escrever Pitchie. A primeira preocupação, como sempre, foi castrá-lo, para evitar que emprenhasse as cadelinhas da casa. Levei-o a uma clínica onde a cirurgia foi feita com total segurança. Quando o trouxeram de volta, ele passou algum tempo sob efeito da anestesia, dormindo placidamente como um anjo gordo e lindo. Eu estava encantada com o temperamento e a vivacidade daquele animal, que contrastavam com o seu tamanho.

Depois da castração, achei melhor levá-lo para a minha casa, onde ele ficaria em observação até o seu completo restabelecimento e onde ele certamente seria melhor alimentado, já que Maria tem muitos animais e poucos recursos financeiros.

Enquanto Pitchie se recuperava, comecei a fazer propaganda dele. Fiz cartazes que colei em pet shops, clínicas veterinárias e outros estabelecimentos. Eu achava que rapidamente ele seria adotado, já que era indubitavelmente muito vistoso, alegre e simpático. Só que o tempo passava e ninguém se candidatava. Muita gente se compadeceu da sua história e procurou acompanhar a sua trajetória, mas ele continuava na minha casa.

Um dia uma amiga arrumou um provável interessado. Fui ao local combinado – o pátio de um prédio onde ia haver uma reunião informal – e esperei que o homem chegasse.  Enquanto esperava, Pitchie fazia sucesso. Ouvia elogios a sua beleza, balançava o rabo alegremente, mas não queria desgrudar de mim. Fiquei intrigada com aquela atitude, ele parecia ficar inseguro se eu não estivesse ao seu lado. Por brincadeira, eu me escondia atrás das pilastras do prédio e ele me buscava feito louco.

Quando o candidato à adoção chegou, passou por Pitchie sem dar a mínima atenção. Aquilo era demais. Ficamos os dois com cara de bobos (se é que um cachorro pode ter cara de bobo), mas acho que, intimamente, aquela indiferença era tudo o que Pitchie desejava, e hoje eu agradeço a Deus que as coisas não tenham saído como eu esperava.

Os dias continuaram passando e ninguém se interessou pelo meu cachorro. Nesse ínterim, ele se adaptou muito bem no quintal com Helena e Mirim, minhas duas amadas vira-latas. De longe eu os via brincando, um correndo atrás do outro, como crianças travestidas de cães. A alegria deles era contagiante e eu ria com satisfação daquelas brincadeiras inocentes e sadias, brincadeiras de morder rabo e orelhas e de pular nas costas do outro. Pouco tempo se passou antes que mamãe tomasse as rédeas da situação e comunicasse, para meu alívio, que Pitchie não sairia nunca mais da nossa casa.

Já faz cinco anos que Pitchie mora conosco, e todo esse tempo eu só tive alegrias com ele. Continuo achando ele lindo, uma mistura de sheepdog com poodle gigante. Tudo nele é motivo de satisfação para mim: se está peludo, parece um urso e eu o chamo de Cabeção ou de Meu Urso. Quando é tosado, fica parecendo um labrador e eu rio muito da cara de menino bobão que ele tem. Sempre fico ao seu lado enquanto ele está sendo tosado e desfruto de todos os instantes da transformação que ele sofre.

Pitchie é um meninão gordo e desajeitado. Adoro vê-lo correr, ele tem um jeito especial de fazer isso, parece realmente um urso correndo em câmera lenta. Eu o abraço com amor e beijo o focinho gelado no meio daquela grande cabeça onde mal se pode encontrar os seus olhos no meio de tanto pelo. Ah, definitivamente, ele não é mudo!

Eu amo o meu cachorro do fundo do meu coração e esse amor inunda a minha alma. Tenho certeza que muita gente entende o que eu quero dizer com isso. Às vezes eu me lembro que Maria, sem falar inglês, deu a ele o nome de Pity. Apesar de todo sofrimento por que passou, meu cachorro hoje é muito feliz, não traz nenhum vestígio de maus tratos, nem no corpo, nem na alma. Pitchie parece ter perdoado completamente o seu passado, e eu penso que, ironicamente, Maria o batizou com o nome em inglês de um sentimento que faltou na sua primeira dona e que todo ser humano deveria ter pelos animais - a piedade.

Vote it up
1218
Gostou deste artigo?OBRIGADO
 

 

 

Na Nossa Loja