Maldades imaginárias na tarde vazia

Será que podemos mesmo rotular como maldades aquelas criações de uma mente infantil que infligem um sofrimento imaginário?

Redação | 3 de Março de 2019 às 08:00

KatarzynaBialasiewicz/iStock -

Gostava de fingir que o irmão menor era um cachorro. E ainda fazia com que ele latisse para que a brincadeira ganhasse mais sabor. Essa pequena maldade seria usada contra ela durante toda a vida – como era má, fazia o irmão de cachorro, acusava a família, principalmente as mulheres, avós, tias. O que as mulheres que a acusavam se esqueciam de dizer era que o irmão gostava da brincadeira e, se às vezes se fazia de vítima, era porque havia percebido que deixar que a irmã tivesse fama de má era igualmente uma secreta alegria. Com o tempo ela desistiu de provar que no fundo era uma boa pessoa. A fama de malvada já havia se instalado de vez entre as raivosas que se arvoravam em defender o pequeno irmão vitimado.

As tardes inúteis dos fins de semana precisavam ser preenchidas de algum modo.

A imaginação era o melhor refúgio. Os pais dormiam por séculos depois do almoço. Eles ainda eram pequenos para saírem sozinhos e conquistarem a cidade. O tempo longe da escola precisava ser preenchido com alguma diversão. E não havia nada melhor naquele momento do que inventar brincadeiras como a de fazer o irmão de cachorro.

As tardes eram tão imensas que dentro delas ainda cabia outra diversão imaginária: fingir que ela e o irmão eram muito pobres, miseráveis. Não que fossem ricos na realidade, mas tinham boa escola, casa, comida, tudo no jeito. Mas, assim como um dia imaginou ser rica, em uma casa de escadaria feita com os livros grossos na estante do pai, quis também se fazer de pobre e para isso contaria com a ajuda do irmão, que passou a adorar a nova condição temporária.

– Vamos brincar de pobre? – ele pedia, insistentemente. Depois da primeira vez, queria mais e mais viver o que a imaginação da irmã criava.

Por ele mesmo, só sabia brincar de coisas concretas, como bola e carrinho.

Ela já havia passado da fase das bonecas e tinha tanta ideia na cabeça que, se não inventasse viver outra coisa, não suportaria as tardes de tédio profundo sem muito sofrimento.

A brincadeira de podre consistia em pegar um lençol escondido da mãe e armar uma barraca no meio da sala. Ali dentro viviam a fantasia de serem outros: não havia o que comer a não ser os farelos de pão e água. O restante da ficção era movido pela narrativa que ela criava. O irmão adorava. Talvez a invenção toda fosse uma espécie de livro vivo, história falante na qual eles eram os autores e personagens ao mesmo tempo.

Quando os pais resolviam acordar, a tarde já tinha ido.

Não que eles propusessem fazer nada de diferente. Era no máximo uma pizza na esquina ou uma ida ao supermercado. Mas ela estava plena porque não tinha desperdiçado seu fim de semana. E de alguma forma conseguia fingir que a vida era maior. Só depois de grande percebeu o que foram aquelas fugas: uma forma de sobreviver.

E, se algum dia foi má, melhor que vivesse sua pequena maldade fingida do que a maldade real de quem queria incriminar sua imaginação.

Por CLAUDIA NINA – claudia.nina@selecoes.com.br
Jornalista e escritora, autora, entre outros livros, de Amor de longe (Editora Ficções)

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